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7 lições fundamentais de Daniel Kahneman sobre Psicologia Econômica

13 minutos para ler

Criador da Teoria da Perspectiva, trabalho que lhe rendeu o Nobel de Economia no ano de 2002, Daniel Kahneman foi responsável por trazer grandes contribuições para a economia comportamental.

Como podemos imaginar, há diversas vertentes científicas que se dedicam a estudar a psicologia econômica dos seres humanos – isso porque as decisões que nós tomamos não são simples e tampouco baseadas apenas em conhecimento de mercado. Inclusive, quem dera se fossem!

Tudo indica que respeitar a matemática do mercado é um trabalho árduo para nós, que tendemos a agir instintivamente, independentemente de nossa capacidade técnica. Mais do que árduo, muitos especialistas diriam que é contraintuitivo. Afinal, preferimos evitar perdas em vez de arriscar possibilidades de ganhos – o que significa que nossas decisões econômicas são muito baseadas, também, nas emoções.

No entanto, dominar o assunto pode nos ajudar a investir de maneira mais consciente e a tomar decisões mais saudáveis na Bolsa de Valores. Para entender como isso é possível, basta continuar a leitura!

Quem é Daniel Kahneman?

Se você começou a investir em renda variável há pouco tempo, acredite, Daniel Kahneman tem muito a te dizer. 

Nascido em Israel, em 1934, Kahneman é especialista em ciência cognitiva e autor do bestseller Rápido e devagar – duas formas de pensar, que o levou a ganhar o Prêmio Nobel de Economia em 2002. Sua contribuição a essa área de estudo se dá principalmente por mostrar o modo como o homem tende a agir instintivamente, independentemente de sua capacidade técnica.

E se engana quem pensa que ele é um economista: apesar de uma das áreas mais impactadas pelos resultados de sua pesquisa ter sido de fato a economia, Daniel é graduado em psicologia e matemática pela Universidade Hebraica, em Jerusalém.

No que diz respeito aos estudos sobre economia comportamental, Kahneman contou também com o apoio de um outro grande pesquisador, matemático e psicólogo cognitivo: Amos Tversky. Infelizmente, o cientista chegou a falecer alguns antes de receber o Nobel junto com o seu colega.

Em maio deste ano, o teórico lançou o livro “Noise: a flaw in human judgment” (Ruído: uma falha no julgamento humano), trabalho que teve a contribuição de outros dois pesquisadores: Cass R. Sunstein, advogado norte-americano; e Olivier Sibony, escritor, educador e especialista em estratégia.

7 lições de economia comportamental

1- Os nossos instintos não seguem a lógica do mercado

O cérebro é a ferramenta mais poderosa do ser humano. Mas, como será que ele funciona quando estamos operando na Bolsa de Valores – ou, em outras palavras, lidando com o incerto?

Nós crescemos desenvolvendo crenças que correspondem ao ambiente em que estamos inseridos, de maneira que, quando viramos adultos, essas crenças já estão consolidadas.

Durante a nossa vida, no entanto, aprendemos lições que podem nos prejudicar quando o assunto é o mercado financeiro. O problema é que, sem consciência disso, fica muito mais difícil desconstruir esses padrões para beneficiar os nossos investimentos.

Por isso, os estudos de Daniel Kahneman indicam que o ser humano não se sente bem quando está operando adequadamente na Bolsa de Valores, uma vez que o mercado de ações e a sua lógica são muito diferentes dos nossos instintos – que nos levam a procurar por tudo aquilo que é certo e estável.

Raciocinar de acordo com o mercado acionário é um dos grandes desafios para a maioria dos investidores. Mudar as nossas crenças limitantes, portanto, é muito necessário!

E esses vieses cognitivos são difíceis de serem eliminados

O ser humano está cheio de padrões cognitivos que não ajudam em nada no mercado de ações, possuindo comportamentos viscerais relacionados à perda, ao ganho e ao risco que vão contra a matemática do mercado. Esses vieses cognitivos são comportamentos naturais e documentados pela comunidade de psicologia.

Apesar de nenhum investidor querer isso, esses comportamentos padrões são difíceis de serem eliminados, por mais que nós queiramos. Mas é preciso que você tente percebê-los e reflita sobre como eles podem atrapalhar os seus investimentos. Afinal, decisões econômicas saudáveis precisam de um equilíbrio entre razão e emoção.

2- A diferença entre a intuição e a razão

A intuição funciona pelo sistema límbico, que nada mais é que o nosso sistema de fuga e do medo. Esse sistema, portanto, está ligado a emoções e sentimentos, é rápido, automático e exige uma resposta imediata de nossa parte.

A razão, por sua vez, funciona pelo sistema pré-frontal do cérebro – e está ligada à lógica, à capacidade de pensar e de planejar, de controlar e construir processos. Esse sistema nos exige respostas pensadas a resultados de longo prazo.

Saber diferenciar essas duas faculdades que possuímos pode nos ajudar, e muito, na hora de investir.

3- É preciso manter a positividade, acima de tudo

Imprevistos no mercado de ações acontecem e é importante que você não comece a agir de forma inconsciente por conta disso. Esse tipo de comportamento só irá influenciar negativamente os rendimentos das suas operações.

Para isso, é fundamental que você não opere na Bolsa de Valores usando a sua emoção ou intuição no lugar da razão. Esteja ciente dos seus sentimentos e dos comportamentos padrões do ser humano que você reproduz sem querer, e que quer evitar na hora de investir.

Pensamentos e atitudes positivas ajudam nas operações mais do que você imagina – e fazer operações saudáveis, em termos matemáticos e psicológicos, só vai favorecer os seus resultados.

4- A Teoria da Perspectiva (Prospect Theory)

A Teoria da Perspectiva foi a teoria que deu um prêmio Nobel para Daniel Kahneman e, realmente, ela é genial. Primeiramente, ela se baseia na verdade de que fatores emocionais, cognitivos e sociais estão presentes nas decisões econômicas que tomamos, sejam elas pessoais ou institucionais.

Daniel Kahneman diz que os ganhos trazem alegrias e as perdas trazem dores. Apesar dessa constatação parecer óbvia, ela é a chave para entendermos vários processos e padrões mentais. 

O cientista descobriu, a partir disso, que a dor da perda é 2x maior que a alegria associada a um ganho, e esse foi o grande “pulo do gato”, ou, a conclusão da teoria. Entenderemos mais sobre ela logo adiante.

5- A nossa percepção de um resultado igual pode ser diferente

Curioso isso, não é mesmo? A nossa percepção de um resultado igual pode ser diferente…o que isso quer dizer?

Vamos explicar essa constatação com um exemplo. Qual é a diferença entre ganhar R$500,00 apenas e ganhar R$1000,00, para depois perder R$500,00?

Nas duas situações você acabou com o mesmo saldo, a mesma quantia em mãos, mas a sua experiência em cada vivência é diferente. Matematicamente, o resultado é o mesmo, mas as perdas são mais sentidas do que os ganhos. É por isso que nós perceberemos essas situações similares, com resultados idênticos, de maneira distinta.

Se o investidor ganha R$50,00 e depois perde esses mesmos R$50,00, ele pode ter acabado com um resultado neutro, sem perdas, que ele se lembrará apenas da quantia que perdeu, esquecendo-se da quantia que ganhou em primeiro lugar. Afinal, foi constatado que a dor da perda é 2x maior que a alegria associada a um ganho, lembra?

6- A dor influencia a nossa tomada de decisão

Para comprovar a sua teoria, Daniel Kahneman realizou um teste composto por duas perguntas. Vamos à primeira:

1- Você tem R$1000,00 na sua conta. Há duas opções:

  • Opção A – Se você escolher essa, você tem 50% de chance de ganhar mais R$1000,00 e 50% de chance de não ganhar absolutamente nada.
  • Opção B – Se você escolher essa, você tem 100% de chance de ganhar R$500,00 reais, com certeza.

Qual das duas situações você escolhe? Antes de explicarmos o que o cientista cognitivo queria com isso, vamos à segunda questão:

2- Desta vez, você tem R$2000,00 na sua conta. Novamente, há duas opções:

  • Opção A – Se você escolher essa, você tem 50% de chance de perder R$1000,00 e 50% de chance de não perder absolutamente nada.
  • Opção B- Se você escolher essa, você tem 100% de chance de perder R$500,00, com certeza.

Qual das duas situações você escolhe?

Daniel Kahneman percebeu com seu experimento que a grande maioria das pessoas marcava a opção B para a primeira pergunta, e a opção A para a segunda pergunta. Foram as opções que você marcou também?

Mas por que essa mudança de comportamento? Porque o ser humano tende a assumir mais riscos para evitar uma dor – principalmente quando esses riscos estão relacionados a uma possibilidade de perda.

Quando já vislumbramos um ganho, passamos a não assumir tantos riscos mais. Nós nos conformamos com o retorno recebido, ainda que as possibilidades de ganho pudessem ser maiores se arriscássemos.

7- A teoria aplicada ao comportamento do investidor

Mas, afinal, o que tudo isso tem a ver com investimentos na Bolsa de Valores? Para começar, vale lembrar que grande parte dos investidores iniciantes perdem dinheiro simplesmente por operarem pela intuição, deixando a razão de lado.

O sucesso de um investidor é operar contra a sua intuição e manter o controle emocional. Operar com emoção é um convite para perder todo o seu dinheiro rapidamente.

Qual é a lógica do mercado de ações?

  • Operar minimizando riscos, assim, temos mais chances de agir a partir da razão, e não da emoção;
  • Cortar o trade negativo imediatamente (sem tentar fazer média com o dinheiro perdido);
  • Deixar o trade positivo continuar até o fim da tendência (para aumentar a sua média de ganho).

Qual é a natureza do ser humano?

  • Cortar o trade positivo logo no início, porque já estamos satisfeitos com os ganhos, mesmo que pequenos;
  • Dar chances para o trade negativo e não fazer o stop, porque arriscamos mais quando há dor e perdas envolvidas, mesmo que isso implique em aumentar os nossos riscos também.

A falta de conhecimento sobre o mercado de ações, a dificuldade de medir os seus riscos na Bolsa de Valores e o medo de colocar um stop e arcar com os prejuízos, motivado pela dor de uma perda, são fatores de estresse para qualquer investidor e para qualquer investimento. Eles motivam a compra de um ativo pela dor e incentivam o investidor a correr mais riscos sem necessidade.

Então, para atuar de acordo com a matemática do mercado, identifique quais são os traços da sua personalidade que batem com esses comportamentos intuitivos, que podem ser muito nocivos para os seus investimentos. Assim, será possível alinhar-se com o mercado de ações e investir de maneira mais saudável.

Alguns livros de Daniel Kahneman

Se você chegou até aqui, pôde perceber que a economia e o comportamento humano têm mais ligação entre si do que poderíamos imaginar, não é mesmo?

No final das contas, as contribuições de Daniel Kahneman foram – e são – extremamente valiosas para todos nós.

Para quem está investindo (ou pretende começar a investir) na Bolsa de Valores, conhecimento nunca é demais. Pelo contrário: estudar sobre o mercado e a economia comportamental, além de extremamente importante, é um hábito comum no dia a dia de investidores bem-sucedidos.

Por isso, se você deseja aprofundar no assunto, não deixe de conferir os livros e materiais do autor, uma das personalidades mais respeitadas do ramo. Abaixo, trazemos as sinopses de alguns deles:

Rápido e devagar: duas formas de pensar

Fruto de extensos estudos e pesquisas na área da economia comportamental, Rápido e devagar é o best-seller que rendeu o prêmio Nobel de Economia a Daniel Kahneman. No livro, o autor nos convida a uma viagem pela mente humana e explica nossos dois sistemas de pensamento: o primeiro, deliberativo, lógico e racional; e o segundo, rápido, intuitivo e emocional.

A aversão à perda, o excesso de confiança no momento de fazer escolhas estratégicas, a dificuldade de prever o que vai nos fazer felizes no futuro e os desafios de identificar corretamente os riscos, são comportamentos que só podem ser compreendidos se soubermos como as duas formas de pensar moldam nossos julgamentos.

Kahneman revela quando podemos ou não confiar em nossa intuição e oferece insights práticos sobre o nosso processo de tomada de decisão. Além disso, esclarece como podemos usar diferentes técnicas para nos proteger contra falhas mentais – que, muitas vezes, nos levam para a direção oposta do que buscamos.

Felicidade construída: Como encontrar prazer e propósito no dia a dia

Com prefácio de Daniel Kahneman, o livro de Paul Dolan, professor da London School of Economics, combina as mais recentes pesquisas da ciência comportamental com suas experiências pessoais e desenvolve um novo conceito sobre felicidade.

Ao contrário das teorias que sugerem uma mudança em nossa maneira de pensar, “Felicidade construída” se baseia na experiência do autor como economista e foca em como agimos no dia a dia. Os mesmos estímulos que disputam por nossa atenção podem afetar muito ou pouco nossa felicidade: o que importa é a atenção que damos a cada um deles.

Noise: A Flaw in Human Judgment

A proposta de Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein com este livro é mostrar, na prática, como os ruídos (ou, variabilidade em julgamentos que deveriam ser idênticos) têm efeitos prejudiciais em vários âmbitos da nossa vida, incluindo a medicina, o direito, a economia, avaliações de desempenho e seleção de pessoal.

Um exemplo disso pode ser o fato de dois médicos, em uma mesma cidade, fazerem diagnósticos distintos de pacientes com o mesmo problema.

Baseado em extensa pesquisa e repleto de ideias originais, este livro explica como e por que os seres humanos são tão suscetíveis ao ruído e aos vieses ao fazer escolhas – e revela que, com algumas soluções simples, podemos aprender a tomar decisões mais assertivas.

O assunto é intrigante e não para por aí. A Bolsa de Valores tem muito a nos ensinar todos os dias!

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